At times
April 23, 2021

[Translated from the Portuguese by Richard Simas.]

At times
the page is deserted latitude
where not even tired water
or your body
rises
rare and carnivorous
permitted
and not even
the most internal and reserved cactus
roots binding the scarce air
can thrive
in the dry sap of days

Time and time again
we build hills of light
in order to demolish them afterwards
Time and time again
nearly blind we grope for poison
and conjure
seeded water
webs in order to get lost on the path

The feet dig around
injure themselves in the earth’s belly
Hearing splits in the bowels of the earth
Drain us of the lips’ water
Burn our eyes as they meet the sun
circular and thirsty
the page nervous as a uterus
we advance
slow geographies of flame
until the most purified stone

Time and time again
suffocated in outraged masks
the untouched faces
and one in the other
arduous
the offered hands bleeding
poem
we return
starving
miserable
to the awful and yearning page

outcast


Por vezes
a página é latitude deserta
onde nem a exausta água
ou o teu corpo
brota
cru e carnívoro
consentido
e nem sequer
o mais interno e reservado cacto
as raizes prendendo o escasso ar rarefeito
pode medrar
na seiva seca dos dias

Quantas e quantas vezes
edificamos colinas de luz
para as desmoronarmos em seguida
Quantas e quantas vezes
quase cegos tacteamos venenos
e conjuramos
semeada água
teias para nos perdermos no caminho

Revolvem-se
ferem-se pés no ventre da terra
Rasgam-se os ouvidos nas entranhas do mundo
esgotam-se-nos de água os lábios
queimam-se-nos os olhos de encontro ao sol
circulares e sedentos
a página fermentada como um útero
avançamos
lentas geografias de lume
até à mais depurada pedra

Quantas e quantas vezes
sufocados nas ultrajadas máscaras
os intocados rostos
e umas nas outras
árduas
as mãos dadas sangrando
poema
voltamos
famintos
misérrimos
à terrível e ansiada página

proscrita


Photo by JK Sloan on Unsplash


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